Hora do adeus – Luck, o primeiro cão-salvador dos Bombeiros, se aposenta por conta de doença degenerativa

191

19845863Labrador que por 13 anos salvou vidas e localizou desaparecidos atuando no Corpo de Bombeiros do Estado parte agora para o descanso

Por: Débora Cademartori e Vanessa Kannenberg ZERO HORA

No último sábado, Dia do Bombeiro, a polícia gaúcha perdeu um de seus mais valiosos membros. Depois de 13 anos salvando vidas e localizando desaparecidos, uma doença degenerativa obrigou Luck, o primeiro cão do Grupo de Busca e Salvamento (GBS), a se distanciar da labuta.

— Chegou a hora do Luck curtir a aposentadoria. Ele cumpriu a sua missão e muito bem — conta, emocionado, o seu parceiro de trabalho, do início ao fim, sargento Gerson Meireles dos Santos, 44 anos.

A expressão é essa mesma: o cachorro foi aposentado pelo Corpo de Bombeiros. Antes disso, assim como os melhores militares, o labrador de pelagem totalmente preta, com exceção do focinho esbranquiçado pela idade, foi condecorado com uma medalha de mérito em homenagem realizada no Parque Farroupilha (Redenção), também no sábado. Naquela tarde, Luck foi levado para o sítio particular de Meireles, na zona rural de Gravataí, onde irá desfrutar do merecido descanso.

— Agora ele vai poder tomar banho de piscina quando quiser, comer da melhor ração e só não vai correr atrás dos gansos porque não consegue mais correr — brinca o sargento.

Devido à doença, até para se manter em pé o cão tem dificuldade. Luck nasceu no dia 2 de julho, dia da profissão a qual se dedicou desde que tinha 35 dias de vida, quando foi adotado pelo tutor. A ideia de incluir no GBS a ajuda de cães farejadores foi do próprio sargento, que já era adestrador antes mesmo de entrar para os bombeiros.

— Fui selecioná-lo em uma ninhada de labradores. Me chamou a atenção aquele carvãozinho bem pretinho. Era o menor da ninhada, mas era muito ativo. Nunca imaginei que ia dar tão certo — lembra.

Pai de dois meninos, o sargento considera Luck parte da família. Durante a década que estiveram juntos, o binômio, como é chamada a dupla homem e cão, se separou em poucos momentos. Nas férias de Meireles, por exemplo, o companheiro descansava também.

— Tem muita alegria. Somente coisas boas, apesar dos chinelos que ele roeu no início, das roupas que ele rasgou. Ele é muito especial pra mim — diz o tutor, com lágrimas nos olhos.

Antes de ser debilitado pela erliquiose, doença transmitida por carrapatos, Luck percorreu os quatro cantos do Estado atrás de desaparecidos em matas e rios, soterrados por desmoronamentos e cadáveres enterrados. Todos os casos de repercussão estão arquivados em jornais guardados em uma pasta, no sítio. Está lá a página que documenta o primeiro resgate feito pelo labrador, com oito meses de idade. Na ocasião, o cão havia encontrado o corpo de um jovem assassinado, no Morro da Cruz, em Porto Alegre, enterrado a quase dois metros de profundidade.

— Era um fim de semana e levei o Luck às escondidas. Como ele encontrou o corpo de forma surpreendente, o comandante descobriu. Achei que ia ser transferido de área, mas fui surpreendido com o aval do então comandante para montar um canil do GBS — conta Meireles.

Luck durante homenagem na Redenção, no último sábadoFoto: Wilson Cardoso / Arquivo pessoal

Ao longo dos 13 anos de atuação, cinco pessoas foram localizadas com vida e socorridas graças ao faro do cão. Em um dos casos, salvou a vida de um homem que estava desaparecido há três dias, e foi farejado por Luck em menos de meia hora: a vítima estava presa numa fenda com 25 metros de profundidade no interior de Gravataí. Em Montenegro, Luck encontrou o cadáver de uma mulher, que estava enterrado há três anos sob o porcelanato do banheiro de uma casa, em Montenegro. O corpo foi escondido antes de uma reforma, debaixo do encanamento da fossa, tapado com areia, terra, brita, 100 quilos de cal e sob o concreto de cerca de 40 centímetros. Mesmo assim, o sentido mais aguçado do cachorro apontou a localização do corpo.

— Até hoje, não vi e desconheço a existência, isso que trabalho com animais, algum cão que tivesse um comportamento como dele, a facilidade de aprender as coisas, de saber diferenciar a operacionalidade, se é pra achar gente viva ou morta — conta o Meireles.

Se o alvo estava vivo, o labrador ouvia: “Busca!”. Caso as circunstâncias indicavam que a vítima estava morta, o cão recebia um artefato que lembrasse o procurado: uma roupa, um brinquedo, uma lembrança que fizesse remissão ao passado.

Seu faro apurado lhe rendeu até reconhecimento nacional. Em 2007, ele ficou em primeiro lugar no curso brasileiro de busca e resgate para cães, em evento realizado em Santa Catarina.

Além do trabalho de busca e salvamento, Luck também participava do trabalho de cinoterapia desenvolvido no Hospital Militar. Seu papel era ajudar no tratamento de pacientes que tratavam alcoolemia, dependência química ou problemas psicológicos, basicamente oferecendo o lombo para carinho e umas lambidas de apoio.

— É um anjo vestido de cão — sintetiza Meireles.

O legado de Luck, literalmente, se perpetuou no Corpo de Bombeiros. Dos atuais 12 cães farejadores no RS, 11 são labradores: filhos, netos e bisnetos do pioneiro. Um outro rebento alcançou prestígio nacional: Frank, seu filho, faz parte da Guarda Nacional e vai atuar na Olimpíada do Rio.

Em um comunicado oficial, a Brigada Militar anunciou: “Ao cão Luck, nosso muito obrigado. Bom descanso, guerreiro”.