ZERO HORA: “Não seria justo deixar a população mais acuada do que está”, diz PM que não aderiu à paralisação

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Mesmo recebendo o salário parcelado, o sargento Alexandre de Moura Paim defende o juramento que fez no início de sua carreira na Brigada: “proteger a sociedade mesmo com o sacrifício da própria vida”

Por: Débora Cademartori ZERO HORA

Há quase 30 anos na Brigada Militar, o sargento Alexandre de Moura Paim, de Santa Cruz do Sul, decidiu não aderir à paralisação convocada pelos servidores públicos estaduais durante esta quinta-feira. Mesmo recebendo o seu salário de forma parcelada, Alexandre gravou e divulgou um vídeo na internet expondo os motivos pelos quais optou por ir às ruas normalmente. Segundo ele, os brigadianos são a única garantia de segurança da população.

— A gente entende que a população, amedrontada com a criminalidade, não merece que nós, policiais militares, viremos as costas. Nós, policiais militares, somos o único braço forte que você tem para sair com segurança na rua — disse ele nas imagens divulgadas no WhatsApp.

O sargento de 47 anos disse a Zero Hora que este não é o momento para dar as costas também à própria carreira. Apesar do parcelamento, Alexandre reconhece que o trabalho deve ser seguido, já que a corporação é regida por um conjunto de normas inflexíveis.

— Somos subordinados a um regimento muito severo, temos que seguir as regras. É a nossa carreira. Quando a gente entra na Brigada Militar, juramos proteger a sociedade mesmo com o sacrifício da própria vida. Isso é o que nos rege nas ruas. É o que faz levantar todos os dias — explicou.

Ferido e hospitalizado três vezes durante o serviço, o brigadiano contabiliza mais de 500 prisões no currículo. A atuação bem sucedida nas ruas, porém, não garantiu o salário em dia, muito menos a mesma rotina que tinha com a família. Segundo Alexandre, a falta de dinheiro fez ele cortar a ida ao cinema e os passeios com o filho, além de ter de trancar algumas cadeiras na faculdade. Desde o início dos parcelamentos da folha, no meio do ano passado, ele disse que tem de fazer economia antes de chegar ao final de todos os meses para não ser surpreendido.

— Por causa do que está acontecendo, eu achei que o Banrisul iria reduzir a taxa de juros, mas isso não está acontecendo. Eu tenho empréstimos, uso o Banricompras (cartão de crédito e débito). É um vexame estar explicando para os credores a falta de pagamento. Alguns entendem, mas é um constrangimento — lamenta.

O brigadiano concorda que o governo deve ser enfrentado e pressionado sobre a falta de pagamento integral dos vencimentos e o déficit de efetivo em diversas regiões do Estado. Para ele, o fracionamento dos salários de todos os servidores não é uma situação justa.

— Há muitos anos eu entendi que eu presto serviços à comunidade e não respondo pelo caos que está acontecendo no Estado. Mas também não seria justo da nossa parte deixar a população mais acuada do que está — conclui.

“Paralisação não vai nos levar a nada”, diz major da BM

Em Porto Alegre, o major da BM cedido ao Detran Juliano Amaral também atuou normalmente nesta quinta-feira. Deslocado para integrar a força-tarefa da operação Desmanche, ele avalia que a adesão à paralisação pode deixar a criminalidade pior do que está.

— Se cruzarmos os braços agora, a próxima vítima poderá ser eu mesmo, os meus próximos, ou os meus amigos, e isso eu acho que não suportaria mais. Só quem já passou por esse tipo de situação para saber o que representa — disse o major, que perdeu um irmão, também brigadiano, assassinado por um bandido de 21 anos.

Aos 44 anos, 25 de atuação na Brigada Militar, Juliano avalia que a manifestação convocada por alguns de seus colegas pode levar à perda de controle da criminalidade.

— Eu acho que esse tipo de paralisação não vai nos levar a nada. Teremos mas insegurança, mais violência e, daqui a pouco, vamos perder o controle. Se está difícil em dias normais, imagina se largarmos de mão — afirma.