CORREIO DO POVO: Municípios gaúchos ficam sem serviços bancários por conta de ataques no interior

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Após assaltos com explosivos, agências acabam fechando devido a problemas estruturais

As explosões e assaltos a bancos, crimes cada vez mais presentes na rotina das cidades gaúchas, provocam mais do que prejuízos financeiros. Depois que os criminosos pegam o caminho da fuga, deixam para os moradores uma herança de transtornos que, muitas vezes, duram meses, até que as agências bancárias consigam retomar a normalidade do atendimento.

Um dos exemplos é Progresso, no Vale do Taquari, que completa neste domingo 71 dias com a única agência do Banco do Brasil sem funcionar por conta de explosões violentas que comprometeram até a parte estrutural do imóvel. Outra unidade, do Banrisul, ficou fechada parcialmente por dois meses. Os assaltos aos bancos no município de 6,3 mil habitantes ocorreram na madrugada de 25 de fevereiro. A quadrilha, com quatro homens armados, agiu nas duas agências, localizadas no mesmo quarteirão, por cerca de 50 minutos. E ainda usou a “mão de obra” dos próprios moradores para ajudar a carregar os malotes de dinheiro para dentro do veículo, um Renault Duster, que serviria para a fuga.

Apesar de o crime ter ocorrido em fevereiro, os assaltantes continuam sendo lembrados pelos contratempos que ainda afetam à população. Com pouco dinheiro circulando na cidade, o comércio sente os prejuízos, os trabalhadores e aposentados têm dificuldade para sacar seus rendimentos e pagar suas contas, além de os serviços como a contratação de financiamento estarem paralisados. Apenas um banco – Sicredi – está em operação e, nos Correios, multiplicou o movimento para o uso do Banco Postal.

Os contratempos ocorrem justamente na época que deveria ser de maior movimentação no comércio local, já que coincide com o período da comercialização do tabaco, o principal produto agrícola do município. “As pessoas estão indo para outras cidades, como Lajeado, para usar os bancos e já aproveitam para fazer as compras fora do município. Isso impacta muito no nosso comércio. Estamos deixando de vender, de receber os pagamentos e também de fazer negócios futuros, e a gente tem que entender o posicionamento das pessoas”, diz o morador Antonio Brancher Schmitt, que tem uma loja de materiais de construção no Centro.

A comerciante Aderlise Battisti calcula que as vendas no seu mercado caíram cerca de 15% nos últimos dois meses. Para alguns clientes, as vendas têm sido a fiado, para pagamento assim que a situação se normalizar. “Não temos como atender todos os pedidos, porque senão diminui muito o nosso giro, mas tem vários casos que a gente consegue ajudar”, conta. Ela diz que o problema se agrava já que grande parte dos aposentados não costuma usar cartões de débito e crédito para as compras. “A cidade está vazia, movimento fraquíssimo”, diz.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Dione Agostini, diz que foi feita uma reunião com o prefeito de Progresso, Gilberto Costantin, e representantes dos bancos que estavam fechados para cobrar informações a respeito do retorno dos trabalhos. Embora a unidade do Banrisul tenha voltado à normalidade em 24 de abril, o Banco do Brasil até o momento apenas retirou os entulhos frutos da explosão de dentro da agência e não informou data para a volta do funcionamento. A população de Progresso, que viajava até a cidade vizinha de Boqueirão do Leão para usar os serviços do Banco do Brasil, foi surpreendida novamente em 21 de abril. Na madrugada daquele dia foi a vez da agência em Boqueirão do Leão ser explodida pelos assaltantes. Essa unidade também continua fechada e agora afeta a rotina de mais uma cidade gaúcha.

Estado sob ataque

Entre 2006 e 2016, segundo dados do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), ocorreram mais de 1,5 mil ações criminosas contra agências bancárias no Rio Grande do Sul. Foram computados 1.626 mil crimes entre maio de 2006 e a primeira semana de maio de 2017. As agências do interior do Estado foram grande parte dos alvos. Os danos vão desde arrombamentos de cofres e caixas eletrônicos até assalto com uso de “cordões humanos”, quando os criminosos utilizam clientes e funcionários como escudos durante a ação.

Nas madrugadas, muitas quadrilhas aproveitam o baixo movimento nas ruas e ingressam nas agências para violar caixas eletrônicos e roubar o dinheiro. Já entre 10h e 16h, horário de funcionamento dos estabelecimentos bancários, os grupos invadem os locais com máscaras e armas de fogo, muitas vezes fazendo reféns para facilitar o roubo.

Um dos casos que mais prejudica a população é a utilização de explosivos.

O impacto desta ação vai além do roubo propriamente dito. O uso de explosivos tem sido cada vez mais comum e frequentemente acaba por destruir as estruturas físicas dos estabelecimentos. Em cidades pequenas, o dano supera a questão financeira e afeta o cotidiano da comunidade. Segundo o levantamento, neste ano, já foram registrados 20 ataques deste tipo em municípios de pequeno, médio e grande porte.

O primeiro alvo de 2017 foi Mato Castelhano, na Região Planalto do Estado. O município, que tem pouco mais de 2 mil habitantes, foi fortemente prejudicado, pois a agência era a única da cidade e os moradores ficaram sem o serviço. Em Miraguaí, na região Celeiro, dois bancos foram atacados no mesmo dia: 6 de fevereiro. Além do medo generalizado na cidade de 4,9 mil habitantes, também restou a indignação e a falta de acesso aos serviços bancários.

Entre março e abril, três cidades do Litoral Norte foram alvos dos criminosos. Em Mampituba, o foco da quadrilha foi o cofre do Banrisul, único banco do município. O estabelecimento ficou completamente destruído. De acordo com a assessora jurídica da Câmara de Vereadores de Mampituba, Joice Bertoti, todos os servidores municipais recebem pelo Banrisul e precisam viajar cerca de 40 quilômetros, até Torres, para sacar os salários.

Em Três Cachoeiras e Terra de Areia, o objetivo dos ladrões eram os caixas eletrônicos. Dia 8 de abril, o município de Pouso Novo, no Vale do Taquari, teve a agência do Banco do Brasil completamente destruída. O ataque ocorreu no início da madrugada e os criminosos fizeram um cordão humano com moradores da região em frente ao local, para não permitir a aproximação da polícia.

Bancos e funcionários

Nas ações em cidades como Mato Castelhano, Miraguaí, Progresso, Alegria e Vale Real houve uso de explosivos. A preocupação nestes casos é porque, na maioria das vezes, as agências bancárias ficam em prédios comerciais ou residenciais, que podem ser afetados em função do impacto das explosões.

Entre os 20 ataques que ocorreram este ano, o banco mais prejudicado foi o Banrisul. Onze agências foram alvo dos criminosos. O Banco do Brasil foi atacado quatro vezes e o Sicredi vivenciou três episódios. A Caixa Econômica Federal e o Bradesco estão empatados com ataque para cada um.