Profissão de combate à criminalidade e a missão de resgatar vidas

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O soldado Rafael Magalhães, por duas vezes, conseguiu resgatar suicidas

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Atos heroicos acontecem todos os dias. São pessoas anônimas que se doam para o próximo, não importando a cor, o credo, a idade ou a situação econômica. São pessoas que realmente se importam com a vida. Três soldados da Brigada Militar tiveram esta experiência, de poder praticar um ato humanitário, de mostrar que se importam com o ser humano, não importando quem ele seja. O jornal Agora vai mostrar, em três edições, a história de cada um desses soldados e a incrível capacidade que cada um deles teve ao se doar pelo próximo.

Rafael Silveira Magalhães, soldado militar de 26 anos. Por duas vezes, ele foi um dos responsáveis pela continuação da vida de duas pessoas. E nas duas vezes, em uma situação semelhante. Na primeira, uma moça de 21 anos tentou se suicidar, no bairro Recreio. Ela passou em um bar, deixou o celular no balcão e saiu correndo, se embrenhando em um mato. Populares chamaram a Brigada Militar. O soldado Magalhães foi um dos que compareceu no local.

“Deixamos a viatura e entramos no mato atrás da moça. Logo em seguida escutamos uns gritos aterradores, de puro desespero. Corremos na direção destes gritos e chegamos até um casebre. Percebemos que ela estava dentro do mesmo, mas a porta havia sido trancada. Abri com um pontapé e, como em uma visão, a vi pendurada em um fio que estava preso ao teto. Quando abrimos a porta, a luz do dia incidiu sobre ela, que estava com as duas mãos na garganta, segurando o fio e tentando sobreviver. Foi uma cena impressionante, parecia um filme de terror”, contou.

Sem ter tempo de pensar muito, o soldado Magalhães correu até ela, tentando soltá-la. Enquanto isso, outro soldado, Vagner Correa, a segurou pelas pernas. Logo após, estenderam-na no chão e Magalhães iniciou uma massagem cardiorrespiratória. Enquanto isso, o soldado Correa chamava o Samu. “Mas não esperamos pela ambulância. A pusemos na viatura e saímos correndo para o posto de saúde da Saturnino de Brito. Ela estava em estado de choque e tivemos que reanimá-la várias vezes”. A moça sobreviveu.

O SEGUNDO CASO

No segundo caso, um rapaz também tentou se suicidar. Bem próximo ao local onde a moça tentou suicídio poucos meses antes. Um pescador foi quem chamou a polícia militar. E, novamente, quem atendeu a ocorrência foi o soldado Magalhães. “Quando chegamos, o pescador disse que o rapaz passou correndo por ele, em direção à lagoa, e depois não o viu mais. Fomos até a margem e percebemos que ele estava há mais de 500 metros de onde nós estávamos”, relatou.

“Não pensamos duas vezes e entramos no barco do pescador, que nos levou próximo ao rapaz. Quando chegamos perto, observamos que ele estava com uma corda no pescoço, e esta estava amarrada em uma das estacas existentes na lagoa. Ele já estava submergindo e emergindo por várias vezes. Também não pensamos duas vezes e, mesmo fardados e com todos os equipamentos, nos atiramos na água para salvá-lo. E não foi fácil, porque ele é um rapaz de 1.90m de altura. Colocamos no barco e nos revezamos na massagem cardiorrespiratória”, frisou o soldado.

Neste caso, também não houve tempo para a ambulância do Samu chegar, por isso o colocamos na viatura e rumamos para o hospital. A equipe médica disse que ele sobreviveu porque fomos rápidos. Mas chegamos exaustos”, informou o soldado. Estiveram junto com ele nesta ocasião, os soldados Santos Rodrigues e Leonardo Hernandes, além do sargento Schmidt.

AMOR AO PRÓXIMO

O que leva pessoas a agir assim, sem pensar em si, sem se colocar em primeiro lugar? O que leva pessoas a correr, a ponto de chegar à exaustão, para salvar outra, que nem conhece? O soldado Magalhães diz que é inexplicável, mas que é um sentimento muito forte. “Passei dias me perguntando o que seria isso, ainda mais que estive em dois casos semelhantes, praticamente no mesmo local, com 60 dias de diferença entre um e outro”.

“Nós estamos acostumados a combater a criminalidade, a correr atrás de delinquentes na rua. Temos apenas um preparo básico para o atendimento à vida. Então, o que sinto é uma sensação de gratidão, de dever cumprido, de poder ter ajudado o outro. No caso da moça, quando a vi pendurada no fio, parece que estava pedindo para que nós a salvássemos”, disse o soldado.

Para ele, as duas situações estavam para acontecer em sua vida. “Eu acredito em missão. Desde criança eu queria ser alguém na vida e não apenas mais um. E eu sabia que teria uma missão muito forte. Por duas vezes, no mesmo lugar, e nas duas vezes ter êxito, é uma missão que eu teria que cumprir”, relatou. E cumpriu e fez a diferença, tanto que os dois resgatados pelo soldado Magalhães estão vivos e voltaram às suas vidas normais.