“Precisamos ter atenção ao pequeno delito”, afirma novo comandante da BM em Caxias

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Morando em Caxias do Sul há 16 anos, major Ribas assumirá o 12º BPM pela segunda vez Foto: Roni Rigon / Especial

Major Emerson Ribas acredita que forças vivas da comunidade precisam reagir e inibir atual cultura do crime

Por: Leonardo Lopes ZERO HORA

Natural de Vacaria e morando em Caxias do Sul há 16 anos, o major Jorge Emerson Ribas, 44 anos, assume o comando do 12º Batalhão de Polícia Militar (12º BPM) nesta sexta-feira. Liderar os cerca de 400 policiais militares lotados no quartel do bairro Kayser não será uma novidade. Entre dezembro de 2011 e dezembro de 2013, Ribas esteve à frente do 12º BPM, de onde saiu para atuar no Comando Regional de Polícia Ostensiva (CRPO/Serra).

Confira os planos do oficial para o batalhão e as impressões dele sobre o aumento da violência na cidade.

Pioneiro: Como está a expectativa de assumir o batalhão?
Major Jorge Emerson Ribas:
 Eu não esperava, afinal já passei dois anos no comando do batalhão e não é comum voltar para a mesma unidade. Imaginava voltar a comandar um batalhão, mas não o de Caxias do Sul. Foi uma grande surpresa. Um convite do comandante regional (coronel Antônio Osmar da Silva) após indicação do próprio tenente-coronel (Ronaldo) Buss. Eu aceitei e, a partir da resposta, o coronel falou sobre a promoção (a recomendação, da própria BM, é que o comandante de batalhão seja, pelo menos, um tenente-coronel). Mas não está nada condicionado (a decisão final sobre promoções na BM depende de assinatura do governador). Eu vejo como uma consequência natural do trabalho. A minha preocupação é em fazer um bom trabalho e cumprir minha função social. Sei que é trabalhoso e que o momento é diferente daquele de dois anos atrás. Mas a expectativa é boa por retornar ao batalhão que gosto. Realmente é um orgulho trabalhar no 12º BPM, apesar das dificuldades do momento atual.

Considera um desafio?
É a maior cidade do interior do Estado e um dos maiores batalhões da BM. Além disso, em segurança pública, a sociedade toda reconhece as dificuldades do passado e, principalmente, do momento atual. Os problemas financeiros do estado refletem na segurança. Acabamos aprendendo a fazer mais com menos. É o momento de cortar algumas questões que não são prioritárias. Economias precisam ser feitas e é necessário ter foco no que é o principal. Meu foco é pela continuidade do trabalho executado. Percebemos muito, principalmente no setor público, a descontinuidade dos programas e projetos. Acho que é preciso fazer justamente o contrário.

Como percebe este momento de crise na segurança?
A crise na segurança, e nos demais setores, é um reflexo da crise econômica. A segurança em si também é um reflexo da área social, da educação, da saúde, da falta de emprego… são situações que acabam “desaguando” na segurança pública. Falando especificamente, acredito que, em primeiro lugar, precisamos gerir bem os recursos. Queremos fazer a melhor gestão e administração dos recursos que nos são disponíveis. O principal (problema) é a falta de reposição dos recursos humanos. Passamos anos sem reposição de efetivo em toda a hierarquia da BM e não vemos, para curto prazo, algo alentador para repor dos anos que já perdemos. Por isso, nossa atenção é na qualidade dos recursos humanos que temos. (Nosso policial) precisa saber se portar em situações de confronto com pessoas, em manifestações, em situações de perigo de abordagem, saber se proteger e, ao mesmo tempo, fazer com que se cumpra lei. Este ponto de equilíbrio não é fácil.

Com tantos problemas citados, como a BM pode combater a insegurança?
Temos que ter algumas estratégias e objetivos definidos. Saber o que queremos e aonde pretendemos chegar com os resultados. Nós, como polícia ostensiva, temos obrigação com a prevenção. Uma destas estratégias que dá resultado efetivo é o policiamento comunitário. Existem vários núcleos em Caxias. O projeto-piloto foi na cidade e esta formatação atual nasceu no nosso batalhão. Devemos continuar a investir. É uma estratégia e, ao mesmo tempo, uma filosofia profissional do policial militar. Ele precisa estar envolvido, consciente e convencido para atuar de uma maneira preventiva. Embora o foco do policiamento comunitário não seja, por exemplo, evitar o homicídio ou o tráfico de drogas, estes acabam diminuindo por uma consequência natural de uma maior presença do policial naqueles bairros.

Como manter o policiamento comunitário diante de uma demanda excessiva e de falta de efetivo?
Essa é uma das maiores dificuldades geradas pelo efetivo insuficiente. Realizar um trabalho preventivo e, ao mesmo tempo, o atendimento de ocorrências seria o ideal. Sabemos que não temos e que não vamos ter um efetivo nem próximo do ideal nos próximos anos. É algo que precisamos aprender a conviver. Sei que os policiais comunitários precisam atuar fora dos seus bairros e que vai continuar desta maneira. O que iremos fazer é insistir que, no momento que não estiverem atendendo ocorrências, este tempo disponível precisa ser voltado para um maior patrulhamento e conversas com as pessoas que são referências nas suas comunidades. Precisamos estar receptivos para ouvir a comunidade. É a questão fundamental em todos os níveis, não só para o comandante.

Parcelamento de salários, prende e solta, críticas nas redes sociais… Como manter o policial motivado?
É uma dificuldade bastante grande: manter motivado um policial militar que já recebe um salário abaixo do que seria adequado ao risco da função. O retrabalho policial é um desgaste para a sociedade toda. A motivação vem, acima de tudo, pela vocação que é própria do policial e pelo reconhecimento das pessoas para as quais prestamos este serviço.

Em 2012, quando o senhor era comandante, Caxias teve recorde de homicídios, com 134 mortes. Como o senhor compara com o atual momento?
Pelo que recordo, naquele ano houve um índice muito elevado de crimes passionais. É um tipo de crime muito difícil da polícia interferir. Os crimes, de uma maneira geral, são muito cíclicos. Quando se consegue fazer um trabalho de investigação, o que é feito pela Polícia Civil, ou a prisão de uma determinada quadrilha, normalmente cessa um determinado crime por um determinado período. Daquele ano, a recordação é de muitos crimes passionais. Por outro lado, em 2011, foi o ano que tivemos a maior produtividade em termos de apreensão de drogas e prisões de foragido. Aquele ano teve um baixo número de homicídios. Existem algumas estratégias que foram feitas. Quando se trabalha somando esforços, conseguimos bons resultados. Em 2011, foi uma força-tarefa com o Ministério Público que combateu diretamente o tráfico de drogas, e sabemos que a maioria dos homicídios tem relação com o tráfico. A droga é o maior combustível dos homicídios.

Como o senhor avalia o momento de violência em Caxias do Sul?
O homicídio é o principal indicador, uma referência mundial. Caxias do Sul varia sua posição, mas não sai dos oito (municípios gaúchos com mais casos — no primeiro semestre, segundo a Secretaria de Segurança Pública, foi o 4º com 49 homicídios). Acho que a sensação de insegurança que a população tem, muitas vezes, não revela o que temos na rua. Nós temos grandes problemas. Mas, principalmente, o roubo é o grande receio da população. De uma maneira geral, a população não tem tanto receio dos homicídios quanto dos roubos. Porque o perfil atual da maioria das vítimas de homicídios é o envolvimento com a criminalidade. Acho que temos uma boa qualidade de vida (em Caxias) e precisamos trabalhar nisso. Ao mesmo tempo que precisamos ter um sistema policial forte, é preciso de outras políticas públicas que reflitam em segurança.

Que tipo de políticas?
Um exemplo que costumo falar é a valorização de praças e escolas nos bairros. São pontos de referência que precisam ter atenção do poder público. Uma praça abandonada se torna um local degradado e atrairá indivíduos nocivos ao convívio social. As forças vivas e as pessoas da comunidade precisam ter esta percepção e adotar estes locais: transmitir esta sensação e espírito que esta praça é ocupada por pessoas de bem que querem o convívio social. É uma bandeira que todos devíamos ter. Não podemos admitir que a praça ou a escola do nosso bairro tenham uma pichação ou sofram com a depredação. E, se sofrer, o mais rápido possível tem que ser corrigido. E, quando for o caso, levar ao conhecimento dos órgãos policiais. Para que o menor delito seja corrigido e responsabilizado. Temos que nos preocupar com os pequenos delitos. O sistema hoje está invertido. Ele esquece o pequeno delito. Não dá a atenção devida. Isto acaba alimentando e crescendo a proporção das coisas. Podíamos solucionar a questão antes de se tornar um crime maior.

Nas redes sociais, muitas pessoas falam sobre segurança pública e repetem frases como “bandido bom é bandido morto”. Como o senhor percebe estas manifestações?
Não gosto de exagero para qualquer lado. Por exemplo, um preso tem que cumprir sua pena no presídio, com seus direitos e deveres. Só que não pode existir hipocrisia do sistema. (Hoje) eles estão presos e têm pleno contato com o mundo externo. A opinião pública atual é feita muito nas redes sociais, o que é salutar pois reflete o momento de liberdade que temos. Mas não colaboro com a questão do “bandido bom é bandido morto”. Isto é voltar para a barbárie. Violência não pode ser combatida com violência. Não podemos nos comportar da mesma maneira que o criminoso. A instituição do estado precisa ter outros mecanismos. A prisão é o local para bandidos. Mas, nem todo crime é cabível de prisão. Muitos casos podem ser resolvidos com as penas alternativas.

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