“Precisamos de R$ 600 mil e não temos da onde tirar”

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Comandante do Corpo de Bombeiros, tenente-coronel Luiz Marcelo Gonçalves Maia, diz que condições de trabalho são melhores do que na época da Kiss (Foto: deivid Dutra / A Razão)
Comandante do Corpo de Bombeiros, tenente-coronel Luiz Marcelo Gonçalves Maia, diz que condições de trabalho são melhores do que na época da Kiss (Foto: deivid Dutra / A Razão)

Comandante do Corpo de Bombeiros, tenente-coronel Luiz Marcelo Gonçalves Maia, diz que condições de trabalho são melhores do que na época da Kiss

Na última quarta-feira o Jornal A Razão publicou uma matéria apontando que havia nove bombeiros para atender toda a cidade e ainda faltavam carros de incêndios. Inclusive, um bombeiro da corporação, disse que houve momento em que a cidade não tinha caminhões aptos o trabalho.

Nessa entrevista, o comandante regional do Corpo de Bombeiros, tenente-coronel Luis Marcelo Gonçalvez Maya, esclarece que em um dia chegou, na semana passada, a ter somente um carro de origem russa, que não está com sua documentação em dia, a disposição. Maya diz que foi circunstancial e que há dois carros modelos novos na cidade. Na quinta-feira esses dois estavam aptos ao trabalho.

Faltaria ao município um terceiro modelo novo. Mas não há orçamento previsto. O investimento giraria entreR$ 500 e R$ 600 mil.

Ele confirma que durante o verão são somente três bombeiros em plantão em cada unidade, Camobi, Centro e Pinheiro Machado. Mas que isso é o mínimo necessário para prestar o serviço à população e que, se necessário, há verbas de horas extras para chamamento de bombeiros em período de folga.

O oficial ainda apontou boas notícias. Segundo o tenente-coronel, hoje a cidade está mais bem preparada do que na época da tragédia da boate Kiss. Com melhores equipamentos e, mesmo com dificuldades de efetivo, com maior gerencia operacional graças ao processo de desvinculação da Brigada Militar. Até o meio do ano os Bombeiros serão independentes e isso ajudará no crescimento da corporação, diz o coronel.

Equipamentos adquiridos em 2014

VIATURA S10                                                          2

EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO

RESPIRATÓRIO                                                        2

VIATURA DUSTER                                                    1

VIATURA PALIO ADVENTURE                                    2

VIATURA MOTO                                                       1

 

2015

ROUPAS DE APROXIMAÇÃO – EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL     23

CAPACETES PARA COMBATE A INCENDIO                                                  23

BOTAS PARA COMBATE A INCENDIO                                                         23

DESENCARCERADOR – EQUIPAMENTO DE RESGATE                                    2

BALACLAVA – EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL                            23

VIATURA AUTO BOMBA TANQUE                                                                                                  1

Equipamentos especiais de mergulho

Máscaras Full Face                                    02

Comunicadores sem fio                             02

base de superfície para comunicador          01

Sobre a Seção de Prevenção de Incêndios, que emite os alvarás correspondentes, o oficial diz que hoje trabalha com um prazo médio de 70 dias. Mas espera uma melhora com a definição da nova Lei contra incêndios.

Por fim, Maya faz um apelo para pessoas não nadarem em locais sem salva-vidas, já que somente neste veraneio, 12 pessoas morreram afogadas na região.

ENTREVISTA: COMANDANTE DO CORPO DE BOMBEIROS

A Razão – Esclarecendo, como está o atendimento na cidade? São mesmo nove homens de plantão?

Tenente-coronel Maya – Sim, temos três em cada quartel. Nós até poderíamos atender com dois homens uma ocorrência. Mas o mínimo é três; é o que ocorre hoje- três no Centro , em Camobi e no Pinheiro Machado.

Como está funcionando o atendimento, uma viatura vai e uma segunda também parte para dar apoio. É raro ocorrer três ocorrências ao mesmo tempo. Por exemplo, ocorre algo no Parque Pinheiro, vai a viatura de lá e mais uma do Centro. Assim estamos atuando com seis homens em cada ocorrência. Três homens por viatura é o mínimo razoável. Por enquanto atendemos todas as ocorrências, nada ficou para trás e nunca faltou gente.

Em caso de emergência temos no horário do expediente pessoal do administrativo que se necessário vai com uma viatura leve. No caso de enchentes, por exemplo, foi necessário homens e chamamos o pessoal de folga, conseguimos mobilizar 40 quase de imediato. Na escala, trabalha-se um dia e folga três – e hoje temos gerencia nas hortas extras, que permite o uso desse pessoal da folga.

Eu quero dizer que não tem um número certo. Há ocorrência que três são necessários, mas pode precisar de três ou 20. O que não pode ocorrer e não termos o mínimo de nove.

A Razão – Sobre os carros de incêndios? Quantos e como estão?

Maya – Nós na verdade nunca tivemos com menos de duas viaturas em funcionamento. Temos duas novas – uma 2015 e uma de 2011, que dão problemas simples. Em um dia resolvemos.

E temos mais outras três em SM, duas mais antigas, uma viatura de 19 anos – que está com problema de manutenção. E uma com 49 anos. E o caminhão modelo russo – ano 2013, ainda sem documentação regularizada.

Temos dois carros novos aptos, optamos por Camobi ficar sem, que tem um volume de ocorrências menores. Mas, na semana passada, os dois caminhões novos apresentaram problemas, um na parte elétrica e outro nos freios. Usamos as antigas e deu problema nas duas. Isso pode voltar a acontecer, pode, qual a solução, que tivéssemos três caminhões novos, um em cada unidade.

A Razão – Há como adquirir um novo caminhão?

Maya – Tínhamos que conseguir outra viatura de combate a incêndio nova, logo. De onde viria o recurso? Ainda não sei. Preciso de R$ 500mil. Temos ainda a necessidade de uma ambulância nova, para também termos uma apta em cada unidade. Precisamos de R$ 600 mil e não temos de onde tirar.

A Razão – Sobre o caminhão russo. Ele foi doado a quase um ano, como está a sua regularização?

Maya – Esse é de fabricação russa, não tem similar no Brasil, se estraga e leva aqui para arrumar pode piorar, recentemente tivemos um indício de problema na bomba, a gente preferiu não mexer – esperamos a peça nova e já mandamos foto, mas vem da fábrica.

E até agora não conseguimos regularizar no Detran. É o primeiro veículo deste tipo no Estado. Eu estou assumindo a responsabilidade. Esse caminhão não tem autorização para circular. O que faço – tem um incêndio em uma casa, eu tenho que escolher, entre descumprir uma regra de trânsito ou atender a ocorrência – atendo a ocorrência.

Em caso de emergência ele será usado. Hoje ele está na espera, vai para rua quando é necessário reforço ou alguma emergência.

A Razão – Sobre outros equipamentos, como está a corporação?

Maya – O caminhão é um instrumento, mas temos outros. Desencarcerador, por exemplo, para tirar as ferragens de uma vítima presa. Se não tem, trabalha-se com outra ferramenta que aumenta em até quatro vezes o tempo de resposta.

Adquirimos três, investimento de R$ 80 mil. Com esses faço um corte hidráulico, não vibra e não gera faiscamento, da rapidez e segurança no atendimento. Nos últimos três anos foram adquiridos três equipamentos novos, veio da Holanda, um para cada quartel. Foram investimentos do Funrebom(Fundo de Reequipamento de Bombeiros) e do Estado.

Hoje nenhuma viatura vai para atendimento de acidente sem encarcerador, almofadas pneumáticas, que levanta 23 toneladas. Se tem alguém presos vamos conseguir retirar. São equipamentos zero bala.

A Razão – Afinal, hoje, em relação à época da Kiss, como estamos?

Maya – A reportagem (da edição de quarta-feira) deu a entender que esta pior agora. Não, a situação é bem melhor.

Em equipamentos, por exemplo, um que nos fez falta na Kiss é um recarregador de cilindro, que permite que o homem trabalhe sem limite de tempo com proteção respiratória.

O cilindro dá uma autonomia de 40 minutos. Na Kiss, termino o cilindro, eles ficaram sem proteção respiratória. Ele poderia substituir por outo cilindro, mas teria oitenta minutos de autonomia, e a ocorrência durou horas. Esse novo equipamento recarrega dois cilindros em dois minutos.

Se antes poderíamos ter uma limitação para o tempo de atuação do homem, hoje temos um tempo ilimitado.

Com planejamento e o Funrebom temos noção de que só vai melhorar. Não vamos mais diminuir nossa capacidade de atuação. Vamos manter e substituir o necessário e ir melhorando.

Os mergulhadores possuem novos equipamentos – nossa águas, após o mergulho são turvas e o homem perde o sentido da visão , tem no máximo 20 centímetros. Um mergulhador precisa da ajuda do homem no barco. Mas no final do ano passado recebemos duas mascaras full face e que permite a comunicação com o mergulhador, que conversa com o homem em cima.

Há outras coisas, capacetes, bota, roupas, estamos bem melhor.

A Razão – E como se encontra a expedição de alvarás? A prevenção de incêndio?

Maya – Não está como nós gostaríamos – por dois motivos – a legislação ainda ficou pronta, e faltam algumas resoluções técnicas. E o volume de trabalho aumentou, essa legislação deixou o trabalho mais burocrático, temos mais coisas para analisar.

Entre abril de 2013 até março de 2014 baixamos o prazo para 15 dias. Mas foi um mitirão, po tudo que aconteceu.

Hoje são 70 dias. A demanda e a análise ficou mais complexa, mas o nosso efetivo não aumenta. Em primeiro momento partimos de 14 para 33 homens. E ai reduziu, mas chegamos a conclusão que a modificação que podemos fazer e de procedimento. Aumento de efetivo não dá para contar.

Agora, os Bombeiros encaminharam um projeto para alteração da Lei, que quando aprovado vai permitir procedimentos, normas reguladoras.

Vamos imaginar, por exemplo, uma barbearia hoje de 100 até 200 metros, risco pequeno, tem que fazer um projeto e entrar na fila para análise, no mesmo prazo dos demais. O dono bota um extintor, e avisa os Bombeiros, quando tivermos tempo vamos lá e dizemos se está certo ou não. Se estiver errado ela fará os ajustes. Hoje ele precisa apresentar o projeto e esperar, entrar na fila.

A Razão – Como está o processo de separação dos Bombeiros da Brigada Militar?

Maya- Primeiro, até o Corpo de Bombeiros começarem a participar do processo da Participação Popular a corporação vinha decrescendo. Mas em 2013 foram entregues 50 caminhões em todo Estado fruto desta Participação Popular. Não foi o caso de SM, nos recebemos quatro veículos, duas picapes e dois palio adventure.

Portanto, já estamos em crescimento e continuaremos. Com a separação dos Bombeiros será mais rápido ainda. Com a BM, 99% das preocupações do comando são relativos ao policiamento, e não dos Bombeiros. Com os bombeiros independentes as demandas serão imediatas.

Um exemplo, até pouco tempo a seleção para entrar na Brigada era a mesma do policiamento. Ficamos 20 anos esperando para ter uma seleção própria. Só ocorreu em 2012. Passamos a formar nossos homens, antes recebíamos homens que , por exemplo, poderiam não saber nadar. O homem iria aprender a ser Bombeiro na prática. Isso vai acabar.

Sem falar que vamos ter acesso a recursos diretos. Se antes vinha um investimento para Brigada, havia uma discussão do percentual aos Bombeiros.

Já a lotação de efetivo não depende de nós. Já conseguimos, por exemplo, o incremento de horas extras. Temos um limite de horas extras, claro. Mas hoje temos uma boa folga para usá-las. A solução é o ingresso de efetivo e depende de uma decisão de Estado – que precisa de legitimidade da população. Investir na segurança pública e bombeiros é essencial.

A Razão – Comandante, estão ocorrendo inúmeros afogamentos nesse veraneio? O que pode ser feito?

Maya – Olha, desconheço região que tenha tanto pontos de banhos com salva-vidas como a nossa região. Eu venho de Santa Cruz do Sul, e lá havia apenas 5 locais, neste ano aqui são dez.

Não há justificativa para as pessoas não utilizarem esse locais, a não serdesinformação.

Houve enxurradas, que mudam as configurações dosrios, mudam as condições de pedras. Só quem em locais com salva-vidas há inspeções; os banhistas são informados dessas alterações constantemente.

E se acontecer acidentes, é preciso técnica de salvamento, uma pessoa em afogamento perde a razão. E a tendência é arrastar a outra pessoa.Se abraçam e morrem os dois juntos. Temos o material, boia e uma corda. Um leigo fazer o salvamento pode virar outra vitima.

E temos muitos afogamentos de pessoas que sabem nadar, só que mesmo quem sabe nadar precisa estar em um local protegido. Nós pedimos que as pessoas não se banhem em locais que não tenham salva-vidas.

A RAZÃO