Falta de recursos e de efetivo desafiam BM de Bento no combate ao crime

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d87830d1c30975764f0fa2bac9894966_GA falta de recursos para uma simples manutenção de viaturas e o efetivo insuficiente para o policiamento ostensivo são alguns dos problemas enfrentados pela Brigada Militar de Bento Gonçalves para combater a onda de criminalidade crescente no município. Em seis meses, o número de homicídios deste ano quase alcançou o total de assassinatos registrados em 2015 e, somente entre maio e junho, as ocorrências de roubo a estabelecimentos comerciais cresceram assustadoramente.

“As nossas estatísticas têm confirmado o aumento da criminalidade em quase todas as modalidades, e isso tem sido constante desde o ano passado. Nos últimos dias, temos vivido um índice muito acentuado especialmente no roubo ao comércio. E isso é reflexo de tudo o que estamos vivendo no país, uma crise econômica, uma crise política, uma crise nas instituições, e uma ausência muito grande de recursos, seja recursos materiais ou de investimentos em recursos humanos, na contratação de gente”, confirmou o subcomandante do 3° Batalhão de Policiamento de Áreas Turísticas (BPAT), capitão Reni Zdruikoski.

Para ele, há uma situação favorável para a prática de crimes provocada pela diminuição do policiamento ostensivo nas ruas e pela sensação de impunidade no que se refere a uma legislação que não consegue manter os criminosos na prisão.

“Temos vários casos em que a gente prendeu indivíduos que cometeram roubo e os indivíduos ficaram cinco, seis horas no presídio e foram liberados, e no outro dia estavam roubando de novo. Temos casos de indivíduos em prisão domiciliar presos praticando roubos, temos indivíduos no regime semiaberto que a gente já cansou de prender praticando roubos”, afirma o oficial.

De acordo com Zdruikoski, atualmente, a Brigada Militar trabalha com 45% do efetivo considerado ideal para o policiamento de Bento Gonçalves. O problema é que não há perspectivas para que a situação melhore, mas o anúncio da liberação do governo do estado, feito na semana anterior, para o pagamento de horas extras aos policiais, pode amenizar a situação.

“Obviamente que vai resultar em mais presença policial na rua por parte da Brigada Militar, e também deve estender isso aos policiais civis, o que resultará em mais procedimento investigatório e mais prisões”, acredita. Mas faz uma ressalva: “O que nos deixa ainda apreensivos é a expectativa de em quanto será esse aumento. Porque, na situação atual, precisamos de um aumento significativo, robusto, sob pena de não sentir grandes efeitos”.

Quanto à falta de efetivo e ao anúncio de que pouco mais de 200 novos soldados serão incorporados, Zdruikoski é crítico. Para ele, seria preciso ao menos a incorporação de cerca de dois mil novos soldados para resolver a carência de municípios pequenos e de porte médio.

“Fora isso é brincar de fazer segurança pública, que é o que a gente está vendo nos últimos tempos. As pessoas estão brincando de fazer segurança pública, e estão brincando com a vida das pessoas. A situação está difícil teoricamente? Certo. Vamos contingenciar na educação, porque a educação pode recuperar no próximo ano, mas na questão da saúde e da segurança, as pessoas morrem, não tem como recuperar”, sentencia.

Outra dificuldade revelada pelo oficial é a capacidade para a manutenção das viaturas. Recentemente, foi preciso recorrer à boa vontade de um empresário local para garantir recursos para arrumar as viaturas paradas.

O problema, segundo o subcomandante do BPAT, é agravado porque, desde setembro do ano passado, a prefeitura não tem repassado ao Consepro os valores para a manutenção de viaturas. Os valores destinados ao conselho através da cobrança do estacionamento rotativo, que chegam a 21% do total arrecadado e que antes eram destinados a esse fim, agora estão sendo repassados para cumprir o convênio do policiamento comunitário.

Mesmo assim, o capitão, que também é o responsável pelo policiamento ostensivo em Bento Gonçalves, afirma que a corporação tem agido como pode para interromper a onda de crimes, principalmente aqueles relacionados ao roubo em estabelecimentos comerciais e residências, mapeando onde eles acontecem, identificando o método e o perfil de quem pratica e tentando coibir antes de cometer o crime.

“Com os recursos que temos, estamos manobrando para conseguir ter mais efetivo nas ruas nos horários e locais em que isso está acontecendo. Mas estamos trabalhando com um cobertor muito curto, ao passo que você direciona para um determinado horário, você descobre outro. Então ficamos nessa brincadeira de gato e rato e não evoluímos muito”, reclama.

Outro foco da BM é o combate ao tráfico de drogas, responsável pelo crescimento do número de homicídios na cidade, e que, segundo Zdruikoski, está ligado a uma disputa por território entre os traficantes.

“Estamos hoje vivendo uma realidade que se aproxima de cidades como Caxias e Porto Alegre. Alguns bairros estão vendendo drogas por bandeira, como um posto de combustíveis. E, quando temos pontos de tráfico com fornecedores diferentes, há briga pelo território, e quando há briga pelo território, alguém morre. E é isso que tem acontecido”, garante.

Diante dessa situação, o oficial não projeta uma situação muito melhor em um curto espaço de tempo.

“O que eu estou dizendo é a posição de um capitão da Brigada que está dizendo coisas que de fato vive no seu dia a dia. Tenho 30 anos de serviço e conhecimento bastante aprofundado de como as coisas funcionam. A gente está cansado de ouvir promessas, ouvir coisas que não acontecem, e ver as administrações brincarem com a vida das pessoas”.

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